Se o seu filho tem um celular próprio — ou se você está pensando em comprar um para ele —, mais cedo ou mais tarde, haverá uma conversa que você não poderá adiar: sexting. Embora possa ser desconfortável para todos os envolvidos, é uma conversa muito importante que precisa ser feita e retomada.
Mas o “sexting” não se resume a adolescentes trocando mensagens picantes com a pessoa em quem estão interessados: pode acontecer de muitas maneiras diferentes e, como pais, podemos nem perceber como isso se manifesta. Os adolescentes estão crescendo em uma era em que compartilhar fotos, conversar abertamente com as pessoa por quem se sentem atraídos on-line e flertar nas redes sociais é completamente normal.
A boa notícia é que você não precisa ser um especialista em tecnologia para acompanhar. Com as informações certas e maneiras de apoiar a comunicação aberta, você já estará a meio caminho de ajudar seu filho a permanecer seguro enquanto explora o mundo digital e a fornecer as ferramentas necessárias para que ele tome decisões mais conscientes sobre as mensagens, fotos e informações que compartilha.
O que é sexting?
A palavra “sexting” é uma combinação de sexo com mensagens de texto. Representa o ato de enviar ou receber mensagens, fotos ou vídeos com conteúdo sexual.
As mensagens de “sexting” nem sempre são explícitas. Pode ser uma foto, um vídeo ou até mesmo uma conversa que se torna mais “intensa” na paquera — mensagens e imagens que parecem mais inocentes podem fazer parte de algo maior. O sexting pode fazer parte de um relacionamento saudável entre adultos que consentem e adolescentes mais velhos. Mas apresenta riscos — especialmente para jovens que podem não entender as consequências negativas que esse tipo de mensagem pode ter.
Para os adolescentes, o sexting nem sempre é secreto. Eles podem praticá-lo facilmente em aplicativos que usam no dia a dia, como:
- Aplicativos de mensagens
- Redes sociais
- Chats integrados em videogames
Quando os adolescentes praticam sexting, nem sempre estão procurando fazer algo “perigoso”. O envio e recebimento desse tipo de mensagem pode surgir da curiosidade, do interesse genuíno por outra pessoa ou do desejo de ser aceito pelos colegas. Pressão e influência também podem incentivá-los a participar, seja por parte de um parceiro ou de alguém que conheceram on-line em quem confiam mais do que deveriam.
Quando os adolescentes podem começar a se interessar por sexting?
Uma das coisas que mais surpreende os pais sobre o sexting é a precocidade com que ele pode começar – não porque os adolescentes estejam ativamente buscando esse tipo de conversa desde cedo, mas porque o mundo digital tende a acelerar o que é normal e esperado. Chats on-line, mensagens e compartilhamento de fotos colocam os jovens em uma posição em que podem começar a compartilhar informações e conteúdo pessoal antes de estarem preparados, do ponto de vista do desenvolvimento, para isso.
Diversos estudos mostram que, para a maioria dos adolescentes, o sexting começa por volta dos 15 anos, mas eles podem começar mais cedo, por volta dos 12 ou 13 anos. O acesso precoce a smartphones e redes sociais não indica que os adolescentes eventualmente enviarão esse tipo de mensagem, mas, por meio desse acesso, eles podem ser expostos ao sexting mais cedo. Uma simples mensagem em um grupo de bate-papo, uma imagem que aparece nas mensagens diretas ou uma conversa com flerte que começa a mudar de tom sem que eles queiram. É por isso que é importante conversar sobre práticas de mensagens de risco e o que é “saudável” ou “normal” para a faixa etária do seu filho desde cedo.
Quais são os riscos do sexting?
É quase óbvio que um dos principais riscos do sexting envolve o envio e recebimento de mensagens e fotos de conteúdo explícito ou arriscado. Porém, para os adolescentes, o risco é ainda maior. O período que antecede o envio dessas mensagens, ou o que acontece depois, pode impactar os jovens de diferentes maneiras, e os pais precisam estar cientes do seguinte:
1. Perda de controle
Não podemos controlar o que outras pessoas compartilham sobre nós na internet, principalmente em chats privados e fechados. Assim que um adolescente envia uma mensagem ou imagem, ele perde o controle sobre ela. Uma mensagem pode ser encaminhada ou registrada em uma captura de tela, e uma imagem pode ser compartilhada com colegas ou até mesmo com estranhos. Isso pode acontecer em questão de minutos, sem que seu filho adolescente saiba para onde a mensagem foi enviada ou quem agora possui a imagem original.
2. Pressão social
Nem todos os adolescentes querem praticar sexting: alguns podem se envolver ou começar a fazê-lo simplesmente porque acreditam que é o que se espera deles, ou “porque todo mundo está fazendo”. Essa pressão pode ser sutil, mas difícil de evitar, especialmente em uma idade em que o sentimento de pertencimento social e a aceitação são extremamente importantes para os jovens.
3. Bem-estar emocional
Quando imagens ou mensagens são compartilhadas sem consentimento, o impacto sobre os adolescentes pode ser emocional e socialmente difícil. Eles podem sentir vergonha ou constrangimento, medo de que a imagem ou mensagem seja compartilhada com outras pessoas e a preocupação de que as pessoas comecem a tratá-los de forma diferente. Crianças e adolescentes podem sofrer bullying por coisas que compartilham com outras pessoas, mesmo em particular, com rumores e capturas de tela se espalhando por chats, na escola ou nas redes sociais. Essas questões têm um impacto direto em seu bem-estar e podem afetar seus relacionamentos com amigos ou o desempenho escolar.
4. Sextorsão
Em casos mais graves, mensagens ou imagens privadas podem ser usadas contra uma criança como forma de chantagem, em uma prática conhecida como “sextorsão”. A sextorsão geralmente ocorre na forma de um golpe on-line, no qual o criminoso entra em contato com a vítima, iniciando uma conversa e construindo confiança gradualmente, a fim de solicitar fotos íntimas. Assim que a vítima envia as fotos, o golpista ameaça publicá-las nas redes sociais ou compartilhá-las com amigos e familiares, a menos que a vítima envie dinheiro. Pode parecer extremo, mas é um golpe que cresce rapidamente: a Internet Watch Foundation relatou um aumento de 72% nos casos entre 2024 e 2025.
O sexting é ilegal?
A legalidade do sexting pode ser um tanto controversa, já que o que é “legal” depende bastante do país e da situação específica. Dito isso, quando menores estão envolvidos, a lei tende a ser mais rigorosa e clara.
Em muitos lugares, compartilhar ou armazenar imagens sexualmente explícitas de menores pode ser enquadrado na legislação sobre material de abuso sexual infantil (CSAM, na sigla em inglês), mesmo que essas imagens tenham sido criadas pelo próprio adolescente. Para ajudar a proteger as vítimas, o compartilhamento de imagens íntimas sem o consentimento da pessoa nelas retratada geralmente é levado muito a sério. Na era da inteligência artificial e das imagens deepfake, em que as fotos podem ser criadas sem consentimento, estruturas legais estão sendo desenvolvidas para proteger menores (e adultos) nessas situações.
É aqui que entra a área cinzenta: existem muitas situações diferentes de “sexting”, e o contexto importa. Muitos sistemas jurídicos tentam distinguir entre situações que envolvem abuso ou exploração e aquelas em que os adolescentes agem sem compreender totalmente as consequências.
Embora seja importante que seu filho entenda o que é contra a lei e a gravidade do compartilhamento de informações íntimas, lembre-se de que a maioria dos jovens não age com a intenção de causar danos. Eles podem compartilhar mensagens e fotos explícitas porque não foram informados sobre os perigos relacionados, estão sofrendo pressão social ou confiam em alguém em quem não deveriam. Por isso, para ajudar a orientar os adolescentes, queremos enfatizar a educação digital e a prevenção em vez da punição.
Como conversar com seu filho ou adolescente sobre sexting
Conversar com seus filhos sobre assuntos como sexting não é exatamente algo natural, mas a forma como você aborda a questão faz toda a diferença e pode ajudar você a se sentir mais à vontade. É uma boa ideia conversar com seu filho ou adolescente sobre sexting de maneira apropriada para a idade e que faça sentido para jovens. Confira a seguir como iniciar uma conversa sobre sexting para diferentes faixas etárias.
Conversas com crianças menores
Para crianças pequenas, a abordagem mais eficaz é focar em ideias básicas como privacidade e respeito pelo próprio corpo. Não é preciso entrar em detalhes sobre o porquê, mas apenas ajudá-las a entender que algumas coisas não devem ser compartilhadas on-line ou com outras pessoas.
À medida que crescem, suas conversas podem ser mais diretas. Para adolescentes mais novos, é importante falar sobre pressão, como eles podem reagir se alguém pedir uma foto ou algo que não queiram compartilhar, e o fato de que eles têm todo o direito de dizer “não” sem se sentirem mal por isso.
Conversas com adolescentes
Com adolescentes mais velhos, seu foco mudará para confiança, consentimento e consequências a longo prazo. Nessa idade, você não está apenas se concentrando em evitar riscos: você precisa ajudá-los a fazer escolhas mais conscientes e informadas sobre a maneira como se comunicam on-line e o que compartilham com outras pessoas.
Quer você esteja conversando com crianças pequenas ou adolescentes, um aspecto permanece o mesmo: sua orientação e presença, criando um espaço onde eles possam falar sem medo de serem julgados ou punidos. Quando as crianças se sentem assim, é menos provável que recorram a você quando surgir um problema, e existe o risco de a situação piorar ou de elas guardarem tudo para si, sem ajuda ou orientação.
Como ajudar seu filho a desenvolver limites saudáveis em relação às mensagens
A segurança on-line não se resume a uma conversa isolada. O aprendizado contínuo e a definição de limites saudáveis para manter o uso da tecnologia adequado à idade e seguro ajudam crianças e adolescentes a explorar o mundo digital e a conquistar mais liberdade à medida que crescem. Leia a seguir algumas maneiras de ajudar os jovens a construir relacionamentos mais saudáveis on-line e a definir limites enquanto conversam e trocam mensagens.
A tecnologia como aliada
A tecnologia, quando usada de forma intencional e consciente, também pode ajudar a trazer equilíbrio e segurança. O controle parental, por exemplo, pode ajudar a limitar o acesso a determinados aplicativos ou fornecer mais informações sobre como as crianças estão usando seus dispositivos, principalmente quando mais jovens.
Ferramentas como os alertas de mensagens do Qustodio podem ajudar a detectar potenciais sinais de alerta sem mostrar conversas completas. Como pais, não queremos invadir a privacidade, mas queremos estar próximos, dando espaço para nosso filho crescer, orientando e supervisionando caso surjam situações potencialmente arriscadas, como cyberbullying, conteúdo sexual ou comportamento predatório.
Nosso próprio exemplo para os adolescentes
Outro aspecto crucial na definição de limites digitais que às vezes negligenciamos é o exemplo que damos. Educar nossos filhos sobre a vida on-line não começa assim que eles ganham seu próprio celular ou quando se tornam adolescentes: começa muito antes. Se compartilhamos imagens de crianças em situações íntimas desde tenra idade (como fotos na hora do banho) sem nos preocuparmos com a privacidade delas, estamos transmitindo a mensagem de que esse tipo de compartilhamento e exposição é normal.
Ensinar as crianças a protegerem a sua própria privacidade, especialmente on-line, começa com as escolhas que fazemos. Algumas lições importantes são:
- Pensar antes de publicar
- Respeitar a sua presença digital (tudo o que pode ser visto e será visto sobre elas on-line)
- Mostrar às crianças que algumas coisas é melhor manter em privado e off-line
O sexting faz agora parte da vida digital que os adolescentes de hoje encontram, e evitar o assunto não faz com que o problema desapareça. Abertura, confiança e orientação, aliadas a ferramentas que ajudem as crianças a aceder à tecnologia de forma adequada para sua idade, são geralmente a abordagem mais eficaz, muito mais do que uma proibição total.
Como pais, não precisamos ter todas as respostas, mas podemos fazer a diferença estando disponíveis, informados e dispostos a ouvir sem julgamentos, enquanto os nossos filhos exploram os espaços e desafios on-line com o nosso apoio.